Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vilipêndio

A lição do Dr. Sacks

Oliver Sacks by Nigel Parry-Katz

 

Acabei de devorar Despertares, o emblemático livro do Dr. Oliver Sacks, e a lição que nos dá é tremenda e definitiva. Ao ler as palavras daquele que foi o neurologista mais marcante do seu tempo, passamos a fronteira do mundo palpável e somos transportados para uma dimensão onde o nosso corpo é um mero e ingénuo ínicio, e onde a distinção entre o real e imaginado deixa de fazer sentido. É brilhante a forma como o Dr. Sacks relata as vivências de quem passou meia vida (ou, em muitos casos, mais que isso) paralisado dentro dele mesmo, e como, mesmo nessas circunstâncias, o nosso cérebro adquire, ou optimiza, a capacidade de imaginar mundos novos como forma de se auto-alimentar e preservar. 

 

A encefalite letárgica, ou doença do sono, foi uma doença do inicio do séc. XX que afectou centenas de milhares de pessoas de todas as idades, enterrando-as num buraco negro de profunda incapacidade mental e motora. Apesar de manterem algumas faculdades básicas, como a orientação espacial, temporal, e de se auto-reconhecer, tudo o resto parecia desvanecer. Todos os movimentos, sentimentos, opiniões desapareciam por completo. A grande maioria dos doentes morreram de forma precoce, devido a crises agudas, mas alguns conseguiram sobreviver e agarrar-se a uma réstia de humanidade ao longo de várias décadas. 

 

É essa réstia, esse pequeno e quase invisível fio de humanidade que Oliver Sacks descreve nas páginas de Despertares, dando-nos indicações completas para entrar na mente de quem não parece ter uma, para que cheguemos à conclusão que os sonhos são os mesmos, e que as vontades e os desejos estão em sintonia com qualquer um de nós. Só não há forma de materializar isso em movimento, fala, etc. Este é um livro que, entre muitas outras coisas, nos mostra o desagrado do autor pela despersonalização na relação médico-doença, pela falta de visão metafísica e de identidade na abordagem à doença. Garante que a doença é uma entidade mutável e que é, impreterivelmente, resultado directo de quem dela sofre, da sua personalidade, dos seus hábitos, relacionamentos, gostos, ódios, etc. O doente e a doença como um só, únicos só por existirem. 

 

Despertares não é só um livro, é toda uma janela aberta para o mundo de quem foi aprisionado pelo próprio cérebro, um mundo que julgávamos monótono e aborrecido mas que é, aparentemente, tão ou mais vívido que o nosso.

3 comentários

Comentar post