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Vilipêndio

Uma brilhante demência

 

A nossa cabeça dá-se ao luxo de ser o começo e o fim de tudo.  

 

Como fã acérrimo de Monty Python (facto vísivel no chapéu que veste este blog), foi doloroso o anúncio que Terry Jones já não é verdadeiramente Terry Jones. Agora é só uma teimosa amostra do homem que ajudou a dar vida a alguns dos mais épicos sketches da história recentes da comédia. 

Como este:

 A monstruosa influência que o grupo britânico teve no surgimento de uma nova comédia deve-se muito ao pensar e ao olhar de Terry Jones, em igual medida dos seus companheiros na genialidade. E custa saber que se começa a calar, de uma forma dolorosamente lenta, a mente brilhante de alguém que, ainda assim, pode dizer que mudou um pedaço da história de algo. Para quem não sabe, isso faz-se através de coisas como esta:

 

Se a imaginação for o combustível da alma, Terry tem-na e bem. E essas costumam tornar-se lendárias.

Não sei qual seria a resposta que ele daria à pergunta "viver assim vale a pena?", mas sei que, para nós, ele fez com que esta viagem fosse bem mais divertida.

Praxis Parvis

Foto de Paulo Pimenta

Agora que começam os anos lectivos nas faculdades é fantástico o que se vê em alguns dos mais emblemáticos espaços de Lisboa, nomeadamente a uma 5ª feira. Capas pretas, gente aos gritos, cantorias de todos os tipos, e muita bebida com teor alcóolico. De forma geral, vemos miúdos (e outros não tão miúdos) que parecem saídos directamente de um Sudoeste ou de um Paredes de Coura. Tirando a parte dos ovos e da farinha, o cenário é igual.

Visto sermos um país que gosta de criar assuntos sazonais para que depois nada de realmente importante se faça, somos capazes de ouvir falar em praxes nos próximos dias. Os telejornais são hora e meia e os chouriços não se enchem sozinhos.

Quando andei na faculdade, a praxe teve em mim a importância que me apeteceu dar-lhe, e juro que não foi assim tão dificil. Andar na rua de pijama com meia garrafa de tinto a repousar no estômago e a cantar músicas dos Quinta do Bill ou dos Xutos? Eu alinhava. Regras e gritos cheios de recalcamento, insegurança e sensação de superioridade? Isto já não conseguia aceitar. E assim que o dava a entender, partiam para outra, porque caloiros há muitos e os que falam muito são chatos.

A praxe é só mais uma manifestação da nossa sociedade fortemente hierarquizada e estratificada, é um espelho de muitos comportamentos quotidianos e que só são exacerbados por muito vinho e cerveja. Os olhares de baixo para cima, as faltas de respeito e os abusos não são características exclusivas da praxe. A diferença é que nessas situações deixamos de chamar praxe e chamamos "ir para o trabalho". 

A praxe não é um fenómeno extraordinário. Verdade seja dita: é do mais ordinário que por cá pode haver. 

 

Paisagismo rodoviário cancelado

 

Medina tem sonhos com vias rápidas.

Medina lembra-se que tem umas autárquicas para ganhar.

Medina sabe que o português gosta de ver as coisas melhor mas não gosta do processo que leva as coisas a ficarem melhor.

Medina sabe que português que leva com trânsito às 8 da manhã não vota em quem mora no poleiro.

Medina treme. 

Medina cai à terra e cancela o paraíso rodoviário que havia sonhado.

Medina chora, mas disfarça.

A lição do Dr. Sacks

Oliver Sacks by Nigel Parry-Katz

 

Acabei de devorar Despertares, o emblemático livro do Dr. Oliver Sacks, e a lição que nos dá é tremenda e definitiva. Ao ler as palavras daquele que foi o neurologista mais marcante do seu tempo, passamos a fronteira do mundo palpável e somos transportados para uma dimensão onde o nosso corpo é um mero e ingénuo ínicio, e onde a distinção entre o real e imaginado deixa de fazer sentido. É brilhante a forma como o Dr. Sacks relata as vivências de quem passou meia vida (ou, em muitos casos, mais que isso) paralisado dentro dele mesmo, e como, mesmo nessas circunstâncias, o nosso cérebro adquire, ou optimiza, a capacidade de imaginar mundos novos como forma de se auto-alimentar e preservar. 

 

A encefalite letárgica, ou doença do sono, foi uma doença do inicio do séc. XX que afectou centenas de milhares de pessoas de todas as idades, enterrando-as num buraco negro de profunda incapacidade mental e motora. Apesar de manterem algumas faculdades básicas, como a orientação espacial, temporal, e de se auto-reconhecer, tudo o resto parecia desvanecer. Todos os movimentos, sentimentos, opiniões desapareciam por completo. A grande maioria dos doentes morreram de forma precoce, devido a crises agudas, mas alguns conseguiram sobreviver e agarrar-se a uma réstia de humanidade ao longo de várias décadas. 

 

É essa réstia, esse pequeno e quase invisível fio de humanidade que Oliver Sacks descreve nas páginas de Despertares, dando-nos indicações completas para entrar na mente de quem não parece ter uma, para que cheguemos à conclusão que os sonhos são os mesmos, e que as vontades e os desejos estão em sintonia com qualquer um de nós. Só não há forma de materializar isso em movimento, fala, etc. Este é um livro que, entre muitas outras coisas, nos mostra o desagrado do autor pela despersonalização na relação médico-doença, pela falta de visão metafísica e de identidade na abordagem à doença. Garante que a doença é uma entidade mutável e que é, impreterivelmente, resultado directo de quem dela sofre, da sua personalidade, dos seus hábitos, relacionamentos, gostos, ódios, etc. O doente e a doença como um só, únicos só por existirem. 

 

Despertares não é só um livro, é toda uma janela aberta para o mundo de quem foi aprisionado pelo próprio cérebro, um mundo que julgávamos monótono e aborrecido mas que é, aparentemente, tão ou mais vívido que o nosso.

A minha moda é melhor que a tua

BURKOFOBIE_SMALL.jpg Ilustração Boulimie Culturel  |  Christophe Marques | 2016 | behance.net/christophem 

Nesta sombra de sermos diferentes, vamos tentando mudar um problema sem tocar no problema. Lá vamos, silenciosos, passado ao seu lado, pés de lã, fantasmas, sem que dele tenhamos vista e toque. 

Ora, proibir o uso de determinado vestuário balnear feminino é ver a questão pelo outro lado dos binóculos, que se vê bem mais longe. O lado errado, portanto.  

Que se queiram mudar mentalidades, através de pequenas mudanças, soa a boas intenções e a uma tentativa de abordar o assunto de frente mas parece, também, vazio de tudo.

A mulher islâmica não se veste assim na praia porque quer, é-lhe imposto por uma interminável lista de crenças e tradições que pouco lhe dizem mas que muito respeita. É a sua cultura, o resultado de gerações que passaram e enraízaram a mensagem. A nossa cultura é outra completamente diferente. O problema assenta numa coisa tão simples e primitiva: somos diferentes. E tal como existem tons de pele distintos, existem infelicidades que só o são para algumas almas. 

Podemos, ou devemos, querer que todos no mundo sigam os caminhos de quem, ao que tudo parece, é mais evoluído que os outros?