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Vilipêndio

Dois mil e dezoito

A passagem de ano é um mero segundo. Gostava que isso ficasse claro. Ainda assim é possivel discutir, de forma iminentemente filosófica, se é o segundo que mora entre as 23:59:59 e as 00:00:00, ou entre as 00:00:00 e as 00:00:01. Se é para celebrar, teimo que seja de forma rigorosa. Aposto na segunda opção, muito porque tenho um gosto especial em imaginar que às 23:59:59 estamos num ano, às 00:00:01 estamos noutro e que às 00:00:00 não estamos em coisa nenhuma.

E se de rigor nos armamos, que dizer em relação à não celebração da passagem de Janeiro para Fevereiro? O que tem a mudança de um número de mais especial que a de um nome de um qualquer mês? 

Aliás, que raio de nomes e números são esses?!

Bom, são pertinentes questões como estas que atormentam qualquer um. Espero eu. 

De qualquer forma, isso pouco interessa, tal como pouco interessa o sentido destes dias que gostamos de utilizar para juntar pessoas, falar, relembrar e partilhar. Tudo aquilo que mais preenche.

Que 2018 seja o que cada um deseja dele. Mesmo que o que desejemos seja tão abstracto como a passagem de ano. 

E saúde, que também faz jeito. gfdgfdgd.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Eri Griffin Black & White Ink Illustration

 

Saramagueando

 

José Saramago nunca me interessou muito como pessoa. E ainda bem, porque foi da maneira que só agora o descobri, de facto, e da única forma que devia interessar: lendo o que deixou por ler, absorvendo o resultado da sua arte e não das suas acçóes ou opiniões. É arte suficiente para isso. É arte demais, porventura. Mesmo depois de ter devorado parte dos seus dizeres, continuo a não ter o menor interesse em saber quem foi José Saramago, ainda assim. Pouco mais sei dele para além do Nobel, e isso a não saber era vergonha nacional. Posso estar certo em fazê-lo como posso estar errado e isso eu não sei, mas o que sei é que enquanto o assunto for esse eu preferirei estar a ler alguma passagem perdida de um qualquer livro dele. Já vou em quatro livros e vou indo sem saber o que fazer com tantas palavras. misturadas no meio de tanta genialidade e tanto cepticismo em frases tão bem cantadas. Vou saramagueando sem fazer ideia de como tudo será quando mais não houver para saramaguear de fresco. Contentar-me-ei a saramaguear por cima do que já saramagueei. O que se diz naqueles escritos é razão quase universal, prosa suficiente para um homem.

 

A língua é uma experiència, será quiçá a maior conquista do ser humano, uma das ferramentas que mais visceralmente nos molda, e pode ter em nós consequências físicas e reais. Faz sonhar sem sair do mundo real. Saramago é uma prova disso. Faz a maior ginástica que a mente consegue conceber para dizer que sim, e faz a ginástica contrária na frase seguinte, num bailado que não segue normas nem regras. Saramago é, tal como a língua, uma experiência. Ler quem assim escreve, principamente na sua língua de criança, é um privilégio e uma enorme responsabilidade. Esta nossa língua, eterna jovem cheia de cantos e recantos, pode ser tantas coisas mas nas mãos de Saramago é uma certeza e um orgulho. 

 

 

O paladar também conta

"O ano foi particularmente saboroso para Portugal"

António Costa, primeiro-ministro, Bruxelas, Dezembro 2017

 

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Falemos de sabores. Aparentemente são importantes. E falemos do que comemos. Antes de mais, há que dizer que o manjar não parece feito de fresco, nascido hoje, e a verdade é que de ontem também já não parece ser. O seu sabor é daqueles com mais antiguidade que ontem, subtraído das suas qualidades e cheiros originais. Sabe mal, digamo-lo. Tentarmos pôr-lhe algum sal ou um ou dois turistas como tempero, mas não evitamos que continue sensaborão. Mas nós comemo-lo, porque é coisa que precisamos para conseguir sobreviver e, assim, podermos dizer que não gostamos do que comemos. Passar fome não é sabor que queiramos, embora o que comemos seja já de qualidade duvidosa. Os sabores, esses, são de cada um e para cada um se regalar.

 

Ignorando sabores e dessabores, o que nos verdadeiramente estraga a refeição e a sua digestão é sabermos que quem nos cozinha o que comemos não vive na nossa realidade, de cá de baixo, e usa como instrumentos de confecção valores tão inóspitos que se torna impossível sabermos que sabor é este que saboreamos e aquilo que nos estão a dar de comer. Esperemos que, no final, não seja tudo um enormíssimo prato de nada, porque mesmo que se pareça muito a isso, não nos deixa morrer à fome. E isso tem que nos chegar.

 

Eu por mim continuava a falar de sabores, para comer não há grande problema em ser cego, mas aproxima-se provavelmente outra tremenda abordagem da vida nacional por outro interveniente político. São oportunidades fantásticas como esta que a política dá, principalmente quando tudo o que se faz é só um pequeno esboço de política. 

 

A Raríssima vergonha na cara

Já não há dicionário que chegue nem palavras suficientes para definir a pornografia que se passa debaixo do nosso nariz e invisível aos nossos olhos. Já não se vislumbram limites éticos e sociais para o absurdo desta tão saloia corrupção. Vivemos num filme de domingo à tarde que até dá para rir nuns momentos mas que, quando vemos e analisamos bem a história, surge-nos uma inesperada vontade de chorar. 

E como chorar não chega, preenche-me um misto de vergonha alheia e de pena. Por serem tão poucochinho e assim tão pequenos de espirito. Por serem cópias de um livro estragado e podre, e não conseguirem ser mais que isso. São tão pouco que não são nada. 

Que continuem a viver assim, amarrados a uma almofada de dinheiro, ignorantes de conta cheia, vazios de alma e de noção do ridículo. Continuem assim porque nós, estes mesmos pobres de sempre, levamos o orgulho intactos. E isso, a ver pelo que se passa, é ouro. 

 

 

Passeando no tempo


 ilustração de Nicolas Malinowsky (France)

 

"Nós passeamos no tempo até que um dia o tempo acaba"

 

A relatividade com que um jovem chamado Einstein nos destrui o velho mundo e fez nascer um novo ensina-nos que o tempo existe apenas porque nós existimos. Na ausência de quem nele pense e quem a ele se agarre, o tempo morre, não chegando nunca a nascer. Dito de outra forma, o tempo que achamos que corre só corre por acharmos que ele deveras o faz. E que assim seja, mesmo que tudo queiramos, tudo imaginemos, tudo sonhemos e mesmo que isso seja o melhor que fazemos. Há algo de tremendamente belo nesta nossa ilusão de andar, neste nosso belo engano de andarmos para a frente, ou de andarmos sequer, ignorando a dimensão de tudo o que já houve e haverá, imaginando-nos como donos de uma substância surreal e ímpossivel de tocar. E isso pode e deve-nos ser suficiente, porque o tempo é tão alheio a responsabilidades que para alguém ser Camões basta imaginar que é. 

A vida é apenas um passeio que damos pelo tempo, usando esta matéria a que inocentemente chamamos de corpo, quando o que é corpo é a mente e isto que levamos agarrado à cabeça apenas a forma de dar uma expressão real daquilo que é inexplicável. Achar mais que isto do que por cá fazemos conjuga-se sempre como superflúo.

No fim, o passeio acaba e o tempo nega-se a si mesmo. Custa, ainda assim, acreditar no fim de algo que nunca chegou a existir. Porque, no final das contas, a única coisa que existiu foi a nossa vontade que algo existisse.

 

 

 

 

 a Adriana Jones, presidente da Associação de Defesa do Património de Sintra e alfabarrista numa preciosa livraria em Sintra e que, dando mostras da sua simpatia e eloquência, me deu a possibilidade de, com ela, partilhar uma inspiradora conversa onde, entre tudo o resto, me deixou com a frase que serve de chapéu a este texto. E leva agora a resposta!

O (Pai) Natal existe?

 

Ou já nem sequer nele acreditamos?

O Natal parece ter entrado, há já algum tempo, no grupo de coisas que fazemos assim porque este assim é a única forma que conhecemos. 

E pensar e mudar e fazer custa mais que comprar uma boa capa de telemóvel ou um tablet. 

Como celebração e época festiva, o Natal não é nada do que podia ser e é tudo o que alguns querem que ele seja. É só mais uma coisa, sem fundo nem razão. É uma máquina que tudo engole na sede e na cegueira que nos leva a acreditar que ter mais coisas é ter mais. 

Em pequenos aprendemos que o Pai Natal não existe. Deixem-me discordar. O Pai existe, o Natal é que parece que não. 

Mas festejemos, porque de todas as coisas que não fazem sentido nenhum, esta ao menos faz-se acompanhar de família, um bom bacalhau e um bom vinho. 

 

 

Não te demores, Zé

Zé, parece que te foste. Não sei se acredito ainda mas vou fazer um esforço. 

Será quiçá tarde demais, mas apetece-me dizer-te que a tua guitarra não se calará nunca, porque há acordes que o são para sempre e os teus acordes foram e serão vida, deram e darão cor a todas as vidas que existiram e existirão. 

Zé, não devias ter ido.  Nós por cá não sabemos bem o que fazer. Menos felizes, mas continuaremos com a certeza de um porto seguro criado por ti e os teus compinchas, uma luz que parece ficar pequena demais ao pé deste túnel mas que vocês, e tu com essas tuas mãos de ícone, nos ajudam a manter viva. 

Zé, vai lá, mas não fiques aí muito tempo. Vê lá se voltas e trazes a tua melhor amiga. Aquela com a qual escreveste histórias, alegrias e gerações inteiras. 

Estaremos cá à tua espera. 

A praga das pragas

O que o cancro faz não se faz.

E o que podemos fazer em relação a isso é nada, obviamente.

Deixou de ser uma doença e passou a ser uma quase inevitabilidade, um destino certo, escrito algures numa página de toda e qualquer vida. Dê por onde der, em que altura for, o cabrão sempre aparece. 

Fá-lo de uma forma traiçoeira, injusta e silenciosa, assemelhando-se ao larápio que rouba e não se vê. Um larápio que rouba tudo ao roubar a vida, e que não escolhe as vítimas, porque aparentemente todos nós o fomos, somos ou seremos.

A injustiça que transporta e a dor que arrasta são de uma dimensão sobrehumana, conseguindo transformar a vida num jogo, um triste jogo, em que tentamos derrotar com forças que não temos um monstro que não conhecemos, sem cara mas imparável. E o pior dos inimigos que podemos ter é, sem dúvida, aquele que não vemos nem tocamos.

O cancro é, ao mesmo tempo, a antítese e o espelho da vida. É a sua derradeira negação e a sua triste confirmação. E, como todas as coisas que preenchem esta ilusão da vida, não faz absolutamente sentido nenhum. Constitui a mais literal e física realização de que a vida não vale de muito e, que por isso mesmo, vale tudo.

O cancro é um filho da mãe. Infelizmente, a sua mãe é ligeiramente maior que as restantes. Merece, por isso e acima de tudo, o maior dos respeitos, como todos os filhos desta mãe chamada Natureza. Deve obrigar-nos a olhar para tudo com outro par de olhos e dar-nos a certeza que, por ser de matéria tão facilmente quebrável, a vida deve ser preenchida apenas com o objectivo de sermos e nos fazermos felizes uns aos outros.

Ao João Ricardo, ao Pedro Rolo Duarte, ao Manuel e à Maria, a todos os que demasiado cedo se foram. Ao meu avô. À minha mãe. Como nos ordenou um dos nossos maiores, a todos estes devemos o favor de ser felizes. 

 

 

 

 

Ao menos chovem "notícias"

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Quando tudo for um deserto, rezemos para que sejamos capazes de comer pedaços de défice. Porque a fazermos de camelos - há que dizê-lo - tornámo-nos dos melhores. 

Façamos figas para quando a torneira se apagar todos nós consigamos matar a nossa sede com copos de notícias virais e as nossas vacas vivam de comer falsos moralismos. 

Esperemos que quando tudo arder, o ar secar e o verde morrer, algum responsável político resista para lá ir e garantir que tudo será feito para que no ano seguinte não se repita. Resista, também, um jornalista que possa ir lá e fazer a pergunta errada no momento certo. 

Rezemos muito. Porque pouco mais sobra.